O ensino vai muito além do lápis e caderno: conheça histórias de superação de alunos da escola Caetano Dias Tomaz

Por Diego Balieiro

“Fiquei com muito medo dele regredir e não querer ir mais para escola” lamenta mãe de aluno do AEE sobre as dificuldades no período da pandemia

O filósofo e educador Paulo Freire já dizia em uma de suas obras que “não se pode falar de Educação sem amor”. Essa frase marca até hoje a essência de todos que trabalham diretamente com a Educação. É preciso muita dedicação e amor para fazer com que o processo de ensino-aprendizagem se efetive na vida escolar de todos os estudantes.

As histórias que serão contadas aqui se complementam e são marcadas pela mesma paixão de aprender e ensinar, onde os estudantes Mateus Nogueira Santos, de nove anos, e Naziro Pinheiro Pereira, de sessenta, são os protagonistas.

Um menino guerreiro

Filho da merendeira escolar, Marlúcia Pires Nogueira, Mateus é o caçula entre sete irmãos. Desde pequeno o menino sempre foi guerreiro. Após nascer prematuro, aos sete meses de gestação de sua mãe, ele venceu sua primeira batalha, ao lutar pela vida na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Maternidade Mãe Luzia. O seu irmão gêmeo, que se chamaria Tiago, não teve a mesma sorte.

Anos se passaram e Mateus foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), em nível moderado, ainda nos primeiros anos da Educação Infantil. Após o seu diagnóstico, o menino passou a integrar o público-alvo do Atendimento Educacional Especializado (AEE), na Escola Municipal de Ensino Fundamental Caetano Dias Tomaz.

Dentro da sala do AEE, Mateus é atendido pela professora Rose Jane Holanda e a sintonia entre os dois foi imediata. Juntos eles firmaram um laço de auxílio, aprendizado e muito carinho. Por conta do autismo, Mateus tem dificuldades em expressar e entender seus sentimentos. Durante a pandemia, o estudante se sentiu frustrado com a distância gerada pelo fechamento da escola. 

“Foi um período muito difícil para nós, ele sentiu falta da escola, só queria vê as professoras, às vezes elas precisavam ligar pra ele, porque ficava muito ansioso e não dormia quase a noite” comentou Marlúcia.

Embora Mateus tenha tido dificuldades no início, a didática utilizada pela professora, com jogos e atividades lúdicas, têm ajudado Mateus em relação ao controle de suas emoções e em sua aprendizagem. Apaixonado por jogos eletrônicos, Mateus também adora ir à praia e brincar com sua tartaruguinha Jurema, além – é claro, de espalhar gentileza por onde passa.

Educação como recomeço

Com o tino apurado para o negócio, Naziro Pinheiro Pereira, hoje com sessenta anos, começou a se aventurar pelo rio amazonas desde a adolescência. Por anos navegou no trajeto Amapá-Pará-Amapá, conhecendo de cor cada pedacinho da divisa entre os dois estados. Sem tempo para os estudos, ele teve que abandonar a escola, levando pra vida apenas o básico de português e matemática.

Pai de quatro filhos homens, Naziro sempre foi a fortaleza que a sua família precisava, em todos os momentos. Através do seu trabalho, ele conseguiu criar e ajudar a formar todos os filhos, sendo três professores e um comerciante, como o pai.

Mas aos cinquenta anos de idade, o marinheiro mercante sofreu uma guinada brusca nos rumos de sua vida. Após ser diagnosticado com glaucoma, Naziro perdeu completamente a sua visão.

Seu Naziro achou também ter perdido a esperança e tentou tirar sua vida duas vezes: “A vida tinha acabado pra mim, não conseguia seguir a vida […] Quando você está acostumado a fazer alguma coisa e deixa de fazer por perder a visão, foi a pior tristeza que eu tive” relembra.

Inconformado com a tristeza do pai, Francisco Pereira decidiu matriculá-lo na Emef Caetano Dias Tomaz, na turma da Educação de Jovens e Adultos (EJA), na modalidade de AEE. Chegando lá, Naziro conheceu a professora Rosiane Rodrigues Pires, que pertence ao quadro de professores especializados no atendimento aos estudantes com deficiência. 

No começo, Naziro achava tudo muito difícil e, inseguro, indagava a si mesmo se tinha capacidade para aprender algo, após tanto tempo longe das salas de aula.

“Quando eu enxergava, não estudava. Por que tenho que estudar agora?”, questionava o marinheiro.

Por conta do cuidado que Naziro é tratado na escola, aos poucos ele começa a reaprender um novo modo de encarar a vida, e a Educação vai se tornando para ele um desafio prazeroso de se aventurar.

Aquele senhor que já viveu tantos desafios, trocou o leme do barco por letras e números em braille. Acostumado a fazer contas em suas vendas, a sua matéria preferida só poderia ser mesmo a matemática. Hoje, o estudante está decidido a redescobrir o mundo, através do toque dos dedos.

“Com todo acolhimento que recebo todos os dias, eu me sinto mais à vontade para aprender. Antes eu não sabia de nada e agora eu sei escrever até o meu nome. Estou ansioso para aprender mais coisas”, diz Naziro.

Após ter 6 netos homens, Naziro foi agraciado com a alegria de sua primeira neta – a qual logo conhecerá a história do guerreiro que seu avô é.

Atendimento Educacional Especializado

Mateus e seu Naziro não são os únicos atendidos no AEE. Só na Emef Caetano Dias Tomaz são 52 estudantes macapaenses que necessitam de um suporte maior no processo de ensino-aprendizagem. Ao todo, dentro da rede municipal de ensino, 971 estudantes são atendidos com o mesmo zelo que eles, em 78 escolas municipais, nos mais diversos níveis e modalidades de ensino, através do empenho de centenas de profissionais da Educação.

O setor responsável por essa modalidade dentro da Semed é a Divisão da Educação Especial (Diees). A equipe é composta por técnicos das mais diversas áreas, entre psicólogos, nutricionistas e outros profissionais, atuando também no diagnóstico de estudantes com transtornos de aprendizagem e com superdotação.

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